terça-feira, 28 de setembro de 2010

Relato de Cristina #1

Cristina faz o seu 1º relato, tem 50 anos, e vive na Quarteira, Algarve.

Vou contar a minha história por etapas, por várias razões: - é uma história longa; - o início é duro e mergulhar nas memórias do passado ainda é um pouco doloroso. Pode ser assim?

Dedico o meu relato a todos os companheiros desta luta - que é viver com lúpus - aos familiares e amigos que se mantêm ao nosso lado, à memória dos que já partiram e à Dra. Rita Andreia, pela energia que colocou ao serviço da Associação dos Doentes com Lupus.

Quero muito que o meu relato seja um testemunho de esperança para quem o ler.
Tudo começou com a vontade de ser mãe. As cinco gravidezes terminaram todas mal: três foram abortos espontâneos; uma avançou até às 24 semanas, tudo parecia bem, mas o bebé deixou de crescer, fui internada com pré-eclâmpsia e acabei por sofrer um parto induzido de um nado morto.
Os médicos que me acompanharam nunca descobriram as causas para estes desfechos tão tristes. Dos estudos clínicos feitos, tanto eu como o meu marido estávamos bem de saúde e podíamos procriar com sucesso. Finalmente, em 1987, tinha eu 27 anos, muito bem acompanhada por um ginecologista-obstetra de Lisboa, a minha 5.ª gravidez avançava lindamente. Os primeiros 3 meses tinham sido em repouso total e tudo parecia correr bem. Desta vez, uma menina. A barriga crescia, as análises laboratoriais estavam bem ... até que, por volta das 24 semanas, o pesadelo recomeçou. Faço aqui uma homenagem ao Dr. Dória Nóbrega, o meu obstetra, que acreditou sempre que era possível e que me acompanhou carinhosamente durante o internamento na Maternidade Alfredo da Costa. Foi ele o primeiro a suspeitar que eu podia ter uma doença auto imune chamada lupus (a 1.ª vez na vida que ouvi palavra tão estranha) e me mandou a uma consulta de um especialista de medicina interna. Nada feito, não tinha os tais sintomas... Como teria sido útil ter tido a borboleta no rosto, nessa altura!
A menina nasceu de cesareana, feita com urgência para tentar salvar mãe e filha. A mãe está aqui a partilhar esta história, a menina nasceu viva para durar dois dias na incubadora. Foi muito bem assistida, era uma bonequinha de 800 grs. Enquanto eu convalescia, o meu marido teve que lhe fazer o funeral. Lá saímos da maternidade de braços a abanar e de coração destroçado.

Era minha intenção fazer um relato menos emotivo, mas, pelos vistos, não sou capaz. Volto ao passado e está cá tudo, muito vivo e sentido.
Paro aqui por hoje. Ainda há muito para contar. Termino com uma nota alegre:
tenho 50 anos e tenho sido muito feliz!

Até breve.
Obrigada pelo espaço de partilha.

Cristina

3 comentários:

♥ Mamãe Coragem e seu trio ♥ disse...

Oi Cristina.
Entendo teu pesadelo desa época, pois eu perdi um bb aos 04 meses de grávida por causa da lúpus. Hj sou mãe de três mas com muita luta. Talvez nem poderia ter tido tantos filhos asim , pois as vzs a lida é muito grande e o estrese e o cansaço não contribuem para nossa saúde com LES.

Fico aguardando o restante do teu depoimento.
Um beijão


Tony, sempre estou por aqui.
beijão.

Tony Madureira disse...

OLá Cristina,

Estás bem?
Tem uma leitora que gostava falar contigo.

Aqui fica a mensagem dela:

"li os testemunhos, eu vim do Algarve ha um ano vivia em Quarteira e julgava que la ninguem tinha lupus, poderia dar-me o contacto da sra de 50 anos a Cristina, eu passo la em baxo muito tempo... Se ela autorizar obrigada"

Patrícia disse...

Oi Cristina, li seu depoimento, e fiquei ainda mais curiosa com essa situação. É que minha cunhada tem lupus, não sei dizer a real gravidade da situação dela, pois ela e meu irmão não nos falam nada mais detalhado sobre o assunto. Quando soube que ela tinha essa doença, eles nos contaram superficialmente, e eu só soube da gravidade e complexidade, atraves da internet. Esta semana o medico dela disse que talvez tenha que fazer quimio, pois tem uma mancha no pulmão. Isso me deixou muito preocupada. Gostaria muito que vcs me esclarececem. Todos aki em casa morremos de vontade de ter um sobrinho deles, mas por causa da doença, tiveram que adiar esses planos. Sei que existem dietas etc... Eu queria muito ajudar minha cunhada,a viver melhor, ela não se abre nem com a familia dela. As irmãs vivem cobrando um filho deles, quando vejo isso, quase choro e tenho vontade de brigar com a irmã, mas entendo porque minha cunhada não deve ter dito o que realmente é o Lupus.
Obrigada se puderem me esclarecer mais sobre o Lupus.

Patrícia